Tatuagem e ancestralidade na pele preta: um rito que atravessa milênios
- Preto no Metal

- 13 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
A tatuagem, inscrita sobre nossas peles, carrega nossa própria história. Ela pode representar a grandeza das nossas ancestralidades ou carregar os estigmas de tempos de sofrimento. Em diversas culturas, sempre cultuamos os nossos através de cânticos, pinturas e rituais, então, usar a pele como suporte para essas expressões não é algo novo, e nem deveria ser estranho.
As raízes milenares da tatuagem
A história mostra que, como povo, estamos entre os primeiros a usar o corpo como tela. A tatuagem é uma prática ancestral que acompanha a humanidade há milhares de anos. Um dos exemplos mais marcantes é a descoberta, em 2014 (divulgada apenas em 2018), de uma múmia na antiga capital egípcia, Luxor. Apesar da tumba ter sido saqueada, o corpo preservado de uma jovem, com idade estimada entre 24 e 25 anos, apresentava mais de trinta tatuagens espalhadas pelo corpo, incluindo imagens de touros, ovelhas, flores de lótus e diversos Olhos de Hórus. Estima-se que ela tenha vivido há cerca de 3.000 anos, durante o reinado de Ramsés II.
Mas essa não é a evidência mais antiga. Estudos mais recentes sobre as múmias conhecidas como o Homem e a Mulher de Gebelein, com cerca de 5.000 anos, revelaram marcas corporais que inicialmente foram atribuídas ao envelhecimento. No entanto, exames modernos mostraram que se tratavam de tatuagens representando um touro e um carneiro-da-barbária. Esses corpos estão expostos há mais de um século em um museu no Reino Unido, mas só agora foi possível reconhecer essas marcas como arte corporal intencional. Isso sugere que a prática de tatuar-se remonta a períodos entre 3351 e 3017 a.C.
Escarificação: a pele como identidade e rito de passagem
Além da tatuagem, outros povos africanos têm práticas igualmente profundas envolvendo a pele. As comunidades Bodi, Mursi e Suri (Etiópia), os Karamojong (Uganda) e os Neur (Sudão do Sul) utilizam a escarificação, cortes que formam padrões e símbolos na pele. Essas marcas não são apenas estéticas: servem a propósitos medicinais e, principalmente, são rituais de passagem, marcando transições importantes como a chegada à vida adulta.
A pele preta e o apagamento simbólico da tatuagem
Mesmo com toda essa história, a tatuagem na pele preta ainda sofre resistência. O racismo estético, que valoriza exclusivamente traços e tons de pele brancos, contribuiu para o apagamento da tatuagem como símbolo ancestral. Em muitas culturas urbanas, especialmente nas cenas de rock e metal, tatuar-se é um sinal de pertencimento. Porém, pessoas pretas nesses espaços ainda escutam mitos e críticas sobre como a tatuagem “não aparece” ou “não combina” com a pele preta.
Essa ideia é completamente equivocada. Uma matéria do site Wonder Girls Tattoo desmistifica essa questão ao afirmar que sim, a pele preta pode ser tatuada com qualidade e cor. A diferença está no preparo e no conhecimento técnico do tatuador, que deve saber lidar com os diversos tons e texturas de pele. O problema, portanto, não está na pele preta, e sim na falta de preparo do profissional.
Tatuar é resistir
Tatuar a pele preta é retomar uma tradição antiga, é marcar a própria história no corpo, é cultuar os ancestrais, como sempre fizemos, por outros meios. Quando uma pessoa preta se tatua, ela resgata um saber ancestral e desafia padrões estéticos coloniais que tentam limitar a expressão de quem somos.
Se nossa história começou na pele, é justo que continuemos escrevendo nela. Tatuagem é mais do que estética: é memória, rito e afirmação.
Texto por Deise Silva e Joe Ribeiro



Comentários