Dane-se o avião do Led Zeppelin e o macacão de cinco mil dólares do Mick Jagger
- Preto no Metal

- 29 de jan.
- 18 min de leitura
Clemente Nascimento relembra como o punk da periferia de São Paulo nasceu em oposição ao luxo e à fantasia do rock internacional
Por: Hiashine Florentino - Preto no Metal
Em novembro, o Preto no Metal esteve em São Paulo para uma conversa com Clemente Tadeu Nascimento — fundador do Inocentes, de A Fantástica Banda Sem Nome, integrante do Plebe Rude e figura central de grupos fundamentais como Condutores de Cadáver e Restos de Nada, uma das primeiras bandas punks do Brasil.
Um dos construtores do punk brasileiro, Clemente é, literalmente, o punk da periferia cantado por Gilberto Gil. Mas, em vez da Freguesia do Ó, ele cresceu no Bairro do Limão, circulando também pela Vila Carolina, na zona norte de São Paulo — territórios distantes do glamour que dominava as páginas das revistas de rock internacional.
Ao se deparar com aquele imaginário de luxo e ostentação, a identificação era nenhuma. Como ele próprio resume: “Dane-se o avião do Led Zeppelin e o macacão de cinco mil dólares do Mick Jagger. Aquela ideia de dinheiro não fazia sentido.” Para um menino negro da periferia da maior cidade do país, o rock precisava dizer outra coisa.
Foi nesse vazio que o punk encontrou os meninos em fúria da periferia. A urgência política, a revolta diante da desigualdade social e a música direta, crua e engajada se encaixaram como um grito coletivo — “um grito de ódio e constatação de toda uma geração de jovens sem perspectiva”, como Clemente escreve em sua autobiografia Meninos em Fúria – O som que mudou a música para sempre, ao lado de Marcelo Rubens Paiva.
Pouco depois, com o salário de office boy e a ajuda das economias da mãe, ele compraria seu primeiro instrumento: um baixo Giannini.
Em 1986, o Inocentes assinou com a Warner e passou a trabalhar com André Midani. Dessa parceria nasceu Pânico em SP, álbum que se tornaria um clássico do rock nacional e que completa 40 anos em 2026 — com shows prometidos por Clemente tocando o disco na íntegra.

Para além da vida de músico, Clemente sempre esteve à frente — ou nos bastidores — de projetos fundamentais para a cena. Foi um dos principais disseminadores da terceira onda do ska no Brasil, ajudando a expandir o gênero e conectá-lo ao punk, ao reggae e à música negra urbana, num movimento que dialogava diretamente com a periferia e com a realidade social do país.
Muito antes do Tiny Desk, ele já criava espaços de circulação para artistas alternativos no Estúdio Showlivre, além de programas em rádios como a Kiss FM e, atualmente, a Antena Zero, com o Filhos da Pátria. Também participou de projetos ao lado de Gastão Moreira, como Musikaos e Heavylero.
Quando perguntado sobre os próximos projetos, Clemente responde com a mesma lucidez que atravessa toda a sua trajetória: o desejo, segundo ele, é simples e essencial — seguir vivo, ativo e em movimento, fazendo música, criando espaços e fortalecendo a cena.
Essa resposta ganha ainda mais força diante do que viria a acontecer semanas depois. No mês passado, momentos antes de subir ao palco com o Plebe Rude, Clemente sofreu um mal súbito e precisou passar por uma cirurgia cardíaca de emergência. Após mais de 20 dias internado, recebeu alta e segue em recuperação.
Nós, do Preto no Metal, desejamos uma recuperação plena para esse punk véio – como ele mesmo se define na dedicatória do livro.
A seguir, você confere a entrevista na íntegra.
PN: Clemente, como surgiu a parceria com Gastão Moreira para a direção do clipe da Fantástica Banda Sem Nome, e como foi esse processo de reedição até chegar ao resultado final que vocês lançaram agora?
C: O disco foi lançado em 2016, e começamos a gravar o clipe no final daquele ano. O Gastão estava começando a aprender edição de vídeo e me disse: Quero fazer o clipe de vocês. Ele já tinha todo o roteiro pronto, então a gente foi em frente.
No começo, ele não curtiu o resultado, mas agora, com a experiência que ele tem, decidiu reeditar o clipe para deixá-lo do jeito que queria. O clipe é uma obra em conjunto, e agora a direção está assinada por ele. O resultado final ficou do jeito que ele imaginava, e estamos todos muito felizes. E vocês gostaram também? Nós gostamos muito! Aliás, a Fantástica Banda Sem Nome é bem diferente do Inocentes, né?
PN: Como surgiu o processo de composição para a Fantástica Banda Sem Nome? Li que algumas letras não cabiam no Inocentes e você acabou guardando. Faz sentido isso?
C: Sim, faz sentido. Mas isso vai acontecendo naturalmente ao longo da vida; não tem a ver com a proposta das bandas que eu já tenho. Então, às vezes, você acaba guardando algumas músicas.
Em um determinado momento, pensei: Ah, podia gravar isso. Cheguei com umas cinco ou seis músicas. Depois, quando me juntei com o Joe, o Rodrigo Cerqueira e o Johnny, surgiram ideias para outras faixas.
No final, metade do repertório foi composta com o grupo, especialmente para a Fantástica, e a outra metade já era material que eu tinha escrito há algum tempo.
PN: E Como surgiu a ideia de reunir esses músicos para a Fantástica Banda Sem Nome? Como se deu a formação da banda e o convite aos integrantes?
C: Ah, são caras que eu admiro e com quem sempre tive vontade de tocar. O Joe, por exemplo, é baiano e era do Dead Preddies. Conheci ele em 1997, no Abril Pro Rock, em Recife. Foi também o ano em que o Chico Science faleceu, uma tristeza enorme. Depois, ele tocou com a Pitty e, mais tarde, montou uma banda chamada A Serviço do Rei, um tributo ao Elvis. Então, conheço o Joe há muito tempo.
O Rodrigo Cerqueira, do Skuba, uma banda da década de 80, eu conheci quando produzi o disco deles e gravei com eles na Paradox, em 97/98.
O Johnny Monster tocava com o Gastão, era do R.I.P Monsters, e sempre acompanhei o trabalho dele com várias bandas, incluindo Daniel Beleza e os Corações em Fúria, que eu adoro. Ele também tem um projeto solo.
Então, a ideia foi justamente reunir amigos e músicos que eu sempre admirei e com quem queria tocar, cada um com sua história e talento, para formar a Fantástica Banda Sem Nome.
PN: Como você vê as novas gerações, que nem eram nascidas na época do início do Inocentes, fãs do seu trabalho? O que te move a continuar depois de tantos anos?
C: É legal você ter começado tudo isso e ver que ainda faz sentido. O Inocentes, no ano que vem, completa 45 anos, e é minha terceira banda – antes toquei no Restos de Nada e depois no Condutores de Cadáver.
Você percebe que não está vivo só para pagar suas contas, mas porque o trabalho ainda é relevante. Isso é o que te move depois de tanto tempo: o prazer de fazer música, de se expressar e de ocupar seu lugar na história do rock brasileiro.
PN: Essa pergunta você provavelmente já respondeu muitas vezes, mas como foi que você começou na cena punk? E como foi viver isso sendo um jovem negro em um contexto em que não havia tanta representatividade?
C: Eu me vi na cena punk de forma natural, porque sou anterior ao punk, ao hardcore e ao rap. Naquela época, esses estilos ainda não existiam. A gente gostava de rock, mas não se sentia representado pelo rock mainstream, que achávamos feio.
Começamos a ouvir muito rock alternativo, com uma postura mais contundente, como Stooges, New York Dolls e MC5 — bandas políticas que enfrentaram grandes dificuldades nos anos 60 e 70 nos Estados Unidos. Também ouvíamos muito rock and roll dos anos 50, como Chuck Berry e Little Richard, que tinham aquele espírito de rebeldia, músicas curtas para dançar, sem essa coisa elitista que aparecia nas revistas e na mídia.
Eu ficava vendo matérias na Revista Pop, por exemplo, sobre o avião do Led Zeppelin. E pensava: Putz, dane-se o avião do Led Zeppelin ou dane-se o Mick Jagger comprando um macacão de cinco mil dólares. Para a gente, isso não importava. A ideia de ostentação, de dinheiro, não fazia sentido.
Quando o punk surgiu, nos identificamos imediatamente. No começo, a indústria tentou empurrar o punk como moda, mas para a gente era uma continuação natural das influências que já tínhamos, como Ramones, The Clash, MC5, New York Dolls e Stooges. De repente, percebemos: Porra, então somos punk mesmo.
Ser um jovem negro nesse contexto tinha seus desafios, porque não havia muita representatividade, mas a cena e a música sempre foram espaços de afirmação, de expressão e de contestação, que nos acolheram e nos deram voz.
PN: Como você enxerga a presença de músicos negros na cena do rock e do punk, hoje e ao longo dos anos? Você percebe que houve invisibilização ou mudanças com o tempo?
C: No final dos anos 70, havia mais negros nas bandas. Minha primeira banda, o Racionados, por exemplo, era mista, com Charles, Douglas, Ariel e eu. Mas, com o tempo, fomos sendo invisibilizados.
O surgimento do rap também mudou o cenário. Muitos jovens negros da periferia, que poderiam ter o punk como forma de expressão, viram no rap uma alternativa autêntica. Muitos dos primeiros rappers vieram do punk.
Eu fui ver o show do Planet Ramp e percebi que havia muitos músicos negros integrando bandas de punk, como o Skunk e o Coquetel Molotov. O Skunk, por exemplo, estava no primeiro show que eu fiz no Méier, no Rio de Janeiro.
Essa diversidade sempre existiu internacionalmente. Na Inglaterra, X-Ray Spex tinha Poly Styrene, o Selecter e os Specials; na cena Teal Tone do ska, também havia mistura e diversidade.
Nos Estados Unidos, bandas como Plasmatic e Purell tinham músicos negros na linha de frente e influenciaram o Bad Brains e o Death, que também começou na década de 70, mas ficou anos invisibilizado.
A grande indústria musical sempre tentou criar estereótipos para vender para a classe média branca, classificando estilos por etnia – música black, música country, música francesa e assim por diante. No início, eu não me sentia diferente; não era um ET.
Mas, à medida que o punk foi ficando mais ligado à classe média na década de 90, o público e os músicos foram ficando predominantemente brancos, especialmente quando o punk começou a se aproximar do metal, com bandas como Ratos de Porão, Cólera e Garotos Podres, que já atraíam mais o público de classe média branca.
PN: Como você vê o punk hoje, tanto em termos de estética quanto politicamente? O espírito da cultura original ainda se mantém?
C: Sim, mantém sim. Antes existia um punk só, mas hoje o punk é plural. Por exemplo, Dead Fish é uma cena punk diferente da nossa cena da periferia raiz, que continua viva. Hoje existem várias bandas novas, como Condenados e Punho de Mahin, e muitas delas são majoritariamente mulheres.
A cena se reciclou e continua muito efervescente. Há festivais como Punk na Páskoa e Smash It Up, que sempre lotam, reunindo várias bandas novas e mantendo a tradição do punk mais tradicional. Os lugares estão cheios, vários discos estão sendo lançados e a cena nunca esteve tão forte. Hoje é mais fácil produzir música, então as bandas conseguem lançar seus trabalhos mais facilmente.
Essa pluralidade, essa renovação e essa energia mostram que o espírito da cultura punk continua vivo, tanto na estética quanto na postura política e na autenticidade das bandas.
PN: Você acompanha as bandas novas, os discos que estão sendo lançados, e como enxerga a cena atual diante da indústria musical e do que existia antigamente?
C: Acompanho, faço um programa onde toco bandas novas, rock brasileiro e conto a história do rock nacional. Já faço isso desde o Musikaos e desde a época da Paradox. Quando as pessoas dizem que o rock brasileiro está ruim, é porque não estão ouvindo, tem muita coisa legal.
Hoje em dia, também, o rock alternativo não chega tão fácil às pessoas. Não temos mais uma MTV, e muitas vezes vivemos em bolhas. Às vezes, alguém me pergunta: Nossa, a Plebe Rude ainda faz show? e eu digo: Sim, fiz show semana passada. (risos)
Se a pessoa não acompanha, ela não sabe o que estamos fazendo. Essas bolhas nem sempre se conversam, e a grande indústria está dominada por uma monocultura, principalmente o sertanejo, que é empurrado pelo mercado, porque quem comanda a música hoje são os investidores.
Não é mais como na década de 80, quando chegamos à Warner. Fomos contratados por uma multinacional, e o presidente da gravadora, André Midani, não só gostava das nossas letras, como também fazia reunião só para elogiar nossa banda e nossa postura.
Na época, você podia ligar diretamente para o presidente de uma gravadora, e ele valorizava a música. Hoje, isso é impossível. Até falar com alguém de alto escalão em gravadoras se tornou quase inacessível.
PN: Como foi para o Inocentes ser contratado por uma grande gravadora, essa transição da cena punk independente para a grande mídia e o que isso significou para vocês na época?
C: Entrar na gravadora foi uma fase diferente. Até 1983, estávamos no meio da cena punk, com festivais como Começo do Fim do Mundo, produzido pelo Calegari junto com Meire e Bivar, que era o maior festival punk da época e acontecia em espaços alternativos da cena cultural da cidade.
Foi o Bivar que nos descobriu em 1981/82 e começou a nos colocar na grande mídia, o que nos deu visibilidade. Na época, as brigas entre gangues punks na periferia ainda aconteciam, um fenômeno típico da década de 70, como se vê em filmes como Grease, Embalo de Sábado à Noite e The Warriors.
Querendo seguir adiante, montar um selo e gravar bandas, remontamos o Inocentes com Tonhão, André e Ronaldo, que continuam comigo até hoje. Entramos em contato com a cena do rock paulista, tocando com bandas como Ira!, Mercenárias e Replicants, e chegamos à Warner.
O disco Pânico em SP já saiu por uma grande gravadora, assim como outras bandas que migravam para grandes selos.
Essa época foi especial por causa da safra de bandas: várias surgindo ao mesmo tempo, criando momentos históricos e rupturas musicais que às vezes não se repetem.
No final dos anos 60 e começo dos 70, chegavam bandas como Black Sabbath e Deep Purple, trazendo ruptura em relação à década anterior; na década de 90, surgiram Charlie Brown Jr, Raimundos e outros.
PN: Com o surgimento constante de novas bandas, alguma vez já se preocupou que a banda pudesse ser esquecida ou perder espaço para as gerações mais novas?
C: Nunca foi uma preocupação real. Quando terminou nosso contrato com a Warner em 1989/90, não tínhamos vendido milhões de discos e éramos considerados os "fracassados da década de 80". Mas, alguns anos depois, passamos a ser vistos como vintage. (risos)
Hoje, percebo que há várias gerações nos shows do Inocentes, e isso é muito legal. A banda continua produzindo, fazendo shows e permanecendo ativa, para o bem e para o mal. (risos)
PN: Como você enxerga o ska hoje, acha que ele consegue se manter relevante e atingir tanto um público jovem quanto os fãs mais antigos, mesmo depois das polêmicas envolvendo a extrema-direita e a divisão que afetou parte da cena?
C: O ska teve três ondas principais. A primeira foi na Jamaica, na década de 1960. A segunda veio com bandas como The Specials e artistas como Roy Ellis. A terceira onda incluiu bandas como Toasters e, no Brasil, os Skabundongos e Real Big Fish.
É verdade que houve um período em que surgiu ranço em torno do gênero, principalmente com a associação de alguns grupos skinheads à extrema-direita, neonazismo, e outras ideologias que não têm nada a ver com o ska. Mas, historicamente, a cena skinhead sempre foi antirracista. Infelizmente, a mídia acabou dando mais destaque para a faceta negativa.
Hoje, ainda existem várias bandas de ska, festas e festivais que mantêm viva a cultura, misturando punk, ska e reggae. Por exemplo, temos a Punk Reggae Party, onde eu discoteco, e a Subcultura, produzida pelo Nicolas, que também reúne ska, reggae e punk. O problema é que os skinheads de direita não ouvem ska, mas a cena legítima continua ativa e relevante.
PN: Como surgiu seu envolvimento com o ska no Brasil?
C: Eu sempre fui mais rude boy do que punk, porque ouço muito ska. Na década de 1990, produzi a coletânea Ska Brasil, focada na terceira onda do gênero.
Na época, eu tinha uma loja chamada Crash, na galeria, e vendia muitos discos de ska. O pessoal da nova cena frequentava a loja, como o Skabundongos. O Wellington, baterista e fundador da banda, que também era roadie do Innocentes, me explicou que havia uma nova cena de ska surgindo, apoiada por gravadoras como a Moon Records nos Estados Unidos.
Comecei a pesquisar e a conhecer várias bandas, fui a shows como o do Rapcat no SESC Pompeia e fiquei impressionado com a energia. Depois, fui convocado pela gravadora Paradox para produzir cerca de quarenta discos de ska. Entre as bandas que trabalhei estavam Skuba, Boi Mamão (de Curitiba), Mr. Rud (de Belo Horizonte), Tio Manoels (de São Paulo) e os Camundongos.
Produzi os primeiros discos do Camundongos, do Skuba e do Boi Mamão, e essas bandas acabaram se destacando bastante na época. Tentei também contratar bandas cariocas, como Los Hermanos e Los Jungles, mas Los Hermanos acabou indo para outra gravadora.
Los Jungles gravou um disco muito bom, e todas essas experiências ajudaram a consolidar a terceira onda do ska no Brasil.
PN: Quais discos ou bandas você considera essenciais para alguém que quer entender a história do punk e do ska?
C: É difícil escolher, mas tem algumas bandas que são fundamentais. Para começar, ninguém pode deixar de ouvir The Clash. É essencial escutar o disco Sandinista! por completo, não pulando nenhuma faixa.
Outra banda indispensável é o Specials. Tem um vídeo incrível no YouTube do show de 30 anos deles, com a formação original, que é maravilhoso.
Hoje em dia, também existem bandas novas que valem a atenção. Por exemplo, Turnstile, que representa muito a molecada atual.
No geral, algumas bandas marcaram profundamente minha adolescência, mas a música é cíclica e sempre aparecem coisas novas que mantêm vivo o espírito do punk e do ska.
PN: Como foi a experiência de apresentar o estúdio Showlivre na internet e o quanto o programa serviu para descobrir e divulgar bandas novas?
C: Entrei no Showlivre em 2004, numa época em que a internet ainda era limitada, não havia banda larga, então muita gente nem sabia exatamente o que estava assistindo.
Naquela época, precisávamos das grandes plataformas e portais, como UOL, Terra e Yahoo.
O UOL, por exemplo, pagava para produzir conteúdo, e nossas produções alcançavam milhares de pessoas. Foi um período intenso: produzi até duas bandas por dia durante anos, o que fazia do programa algo equivalente ao que hoje seria um Tiny Desk, mas muito antes dessa referência existir.
Além disso, o Showlivre proporcionou oportunidades que hoje são mais dispersas nas redes sociais. Naquela época, havia patrocínio e um controle mais profissional do conteúdo, o que permitia investir nas bandas de forma estruturada.
Hoje, embora plataformas como Instagram, YouTube, Twitter e TikTok facilitem o alcance, o consumo é muito mais rápido e fragmentado. Ainda assim, o Showlivre mostrou que, com dedicação e investimento, é possível dar visibilidade a talentos que, de outra forma, não teriam espaço.
PN: No Brasil, fazer música quase sempre envolve custos altos, especialmente quando se fala em instrumentos e equipamentos. Como essa realidade afetou a vida de músicos da periferia e o acesso dessas pessoas à cena musical?
C: Instrumentos, amplificadores e manutenção sempre foram caros, quase como um carro: não basta comprar, é preciso manter. Para quem vem da periferia, isso sempre foi um grande obstáculo. Rock, historicamente, não é uma linguagem acessível à periferia, justamente porque exige equipamentos caros.
O punk acabou sendo uma exceção dentro desse cenário. Eu mesmo comprei meu primeiro baixo trabalhando como office boy. Depois, precisei de um amplificador maior, e minha mãe tirou dinheiro da poupança para me ajudar, porque a loja nem parcelava. Fui pagando aos poucos, do jeito que dava. Meu amplificador Giannini, cabeça e caixa, me acompanhou em praticamente todos os shows importantes da minha trajetória.
Quando a gente começou a circular pela cena, ficou muito claro o contraste social dentro do rock brasileiro. Isso fazia com que o acesso a equipamentos, informação e oportunidades fosse muito mais fácil para eles do que para quem vinha da periferia.
Justamente por isso, o punk da periferia se consolidou como o punk “de verdade”.
PN: Nos anos 1990, além da música, você atuou na formação de novos artistas ministrando oficinas de produção musical. Qual foi o papel das formações culturais nesse processo?
C: Ali surgiram muitas bandas interessantes. Em vários casos, músicos que hoje fazem parte de grupos conhecidos passaram por essas formações.
Mais do que aprender a tocar ou produzir, esses espaços ajudavam os artistas a entender como se movimentar dentro do meio musical. Quem vem da classe média costuma ter esse conhecimento quase de forma automática, por conta do capital social e cultural. Já quem vem da periferia precisa aprender tudo: como circular, como se organizar, como ocupar esses espaços.
Lembro de circular por regiões como São Miguel, Butantã e Taipas, atravessando a cidade inteira. Muitos músicos se encontraram nesses cursos, criaram redes e formaram bandas a partir dali. Esse processo foi fundamental para fortalecer uma cena que não tinha acesso fácil a equipamentos, informação ou oportunidades.
A cultura, historicamente, foi pensada para a classe média, não para a periferia.
PN: Clemente, você lançou um livro de memórias em parceria com o Marcelo Rubens Paiva. Como surgiu essa ideia, como vocês se conheceram e como foi construir essa biografia?
C: Esse livro surgiu em 2016, no mesmo período em que lancei meu disco solo. Foi uma parceria com o Marcelo Rubens Paiva, que é escritor.
A gente se conheceu lá pelos anos 82 ou 83, e nos tornamos amigos. Na época, eu nem sabia que ele tinha escrito Feliz Ano Velho. A gente frequentava os mesmos lugares, ia aos mesmos shows e estava envolvido na mesma cena.
Ele me sugeriu escrever minha biografia e começamos a fazer reuniões semanais. Descobrimos que tínhamos muitas experiências em comum, lugares que frequentávamos, pessoas que conhecíamos. Eu também enviei alguns textos meus, e ele sugeriu incluir no livro.
O resultado foi uma biografia a quatro mãos, na qual eu escrevi parte dos textos e ele também contribuiu com sua visão. O livro cobre a minha trajetória e a dele, especialmente pós-acidente, já que Feliz Ano Velho termina nesse ponto.
Foi uma experiência divertida e enriquecedora, nos encontrávamos, jantávamos, tomávamos cerveja e trocávamos ideias. Aprendi coisas que tinha esquecido e ele trouxe lembranças que eu já não tinha. É um registro valioso, que depois de dez anos ainda traz memórias importantes.
PN: Você tem uma longa parceria com Gastão Moreira, que inclui o Musikaos e também projetos como o programa Heavylero no YouTube. Como surgiu essa parceria e como ela se desenvolveu ao longo da vida de vocês?
C: Conheci o Gastão na MTV, quando estávamos divulgando discos, e acabamos nos tornando amigos. No final de 1999, ele me ligou enquanto eu ensaiava com o Inocentes e me convidou para ser produtor musical do programa Musikaos na TV Cultura.
Eu aceitei na hora, mas ainda não sabia exatamente o que faria, então fui para a primeira reunião só para ouvir e aprender.
Fiquei envolvido em todo o planejamento, gravamos os pilotos e o programa estreou em 2000, durando até 2003.
Essa experiência deu origem a uma amizade sólida e a várias parcerias ao longo dos anos. Depois, trabalhamos juntos na Kiss FM, ele com o Gasômetro e eu com o Filhos da Pátria.
Mais recentemente, ele montou o KazaGastão e começou a gravar o Heavylero, e me convidou para participar. Eu participo do programa, mas ele escreve o roteiro, faz a pesquisa e seleciona os discos, muitos deles eu nunca tinha ouvido antes. (risos)
É uma parceria de confiança e amizade, construída ao longo de muito tempo, na música e em outros projetos criativos.
PN: Como surgiu o convite para você trabalhar em rádio e como foram essas experiências, primeiro na Kiss FM e agora na Antena Zero, e de que forma você aproveitou esses programas para divulgar bandas novas?
O primeiro convite surgiu da Kiss FM, que queria montar uma programação ao meio-dia. O Gastão entrou nas segundas, eu nas quartas, e o Bruno Sutter nas sextas.
Começamos a ganhar uma boa audiência, e meu programa teve grande repercussão porque a Kiss não tocava muito rock nacional na época.
No meu programa, eu misturava de tudo: grandes clássicos, bandas alternativas, antigas e novas. Foi uma experiência muito legal e o programa fez bastante sucesso. Saí de lá em 2023 e depois vim para a Antena Zero, que é excelente porque me dá liberdade total para tocar o que quero, sem depender do mainstream, focando nas coisas mais alternativas.
Nunca tinha pensado em ter um programa de rádio, mas a oportunidade surgiu de forma natural. Desde a época da Paradox, em 1997 e 1998, eu recebia material de bandas novas — demos, CDs — e queria mostrar para mais pessoas.
A rádio se tornou a saída perfeita para dar visibilidade a essas bandas, permitindo que músicas que mereciam audiência chegassem a um público maior.
PN: Como funciona a logística das turnês tanto da Plebe e Rude, quanto do Inocentes?
C: A gente fala que está em turnê, mas, na verdade, é mais ou menos quem liga, leva. (risos)
Por exemplo, você toca na sexta em Porto Alegre e, de repente, alguém liga para convidar para tocar em Palmas antes do sábado. Então você sai de Porto Alegre e vai para Palmas. Não é como se você planejasse a viagem: “vou para Porto Alegre, depois Caxias do Sul, depois desço até Curitiba”. Não, a gente vai subindo ou descendo conforme aparecem os convites. É tudo meio improvisado. Esse tipo de planejamento só é possível para nomes muito grandes, que conseguem organizar uma turnê estruturada.
PN: Olhando para o futuro, quais são os próximos passos para você e para seus projetos? Que trabalhos, shows ou lançamentos podemos esperar nos próximos meses?
C: Sim. Só artistas muito grandes conseguem planejar uma turnê assim, com tanto detalhe. Quanto aos próximos projetos, o futuro é cheio de pretensões. O legal é continuar vivo e ativo. (risos) Quando você chega a uma certa idade, começa a olhar ao redor e percebe que vai havendo menos gente. Eu vivo de música, então estou sempre inventando algo, criando, produzindo. Por exemplo, estamos trabalhando em um disco novo do Inocentes, porque a banda vai completar 45 anos no próximo ano.
É também o aniversário de 40 anos do Pânico em SP, do Concreto já Rachou e de outros discos importantes lançados em 1986, como o Cabeça Dinossauro e o Futuro é Vórtex dos Replicantes.
É um marco histórico, então planejamos alguns projetos especiais, como shows tocando Pânico em SP na íntegra. Temos várias ideias para aproveitar esses anos e esses recortes, porque nesse momento também se tem mais visibilidade e oportunidade de compartilhar esse trabalho com o público
Apoie o Preto no Metal e suas ações, link na bio do instagram para mais informações



Comentários