A Arte como Posicionamento: Rubah fala sobre música, política e inspirações
- Preto no Metal

- 22 de out. de 2025
- 10 min de leitura
O Preto no Metal conversou com Rubah, artista multi-instrumentista mineiro que já passou pelas bandas Misericore, M.E.K.A. e D.O.P.S., e que hoje está em carreira solo. Em agosto, o cantor lançou a música "Amour" em parceria com a banda japonesa de pop punk Second Lady.
Por videochamada, ele nos contou sobre sua trajetória musical, incluindo a descoberta do jazz e outros universos sonoros. Rubah falou sobre suas influências, parceria internacional, carreira solo, processos de composição e como a música se conecta à política, à vida pessoal e à cena musical brasileira e mundial.
Ele compartilhou reflexões sobre criatividade, tecnologia e a necessidade de levar seu trabalho a novos públicos em diferentes regiões do país e do mundo.
A conversa revela um artista atento às possibilidades do presente, mas profundamente conectado às raízes de sua trajetória, disposto a ampliar cada vez mais o diálogo com outros músicos e com o público. Confira a entrevista na íntegra!
por: Hiashine Florentino

1. Como surgiu essa parceria com a banda japonesa Second Lady?
Rubah: Essa parceria com a Second Lady surgiu de forma bem orgânica. A gente se conheceu por redes sociais, trocando referências musicais, e a afinidade foi imediata. Um dia a vocalista me mandou mensagem dizendo que queria gravar uma música minha, e eu falei: qualquer uma que estiver disponível, pode gravar. A gente escolheu Amour, que já estava no meu disco, e decidiu fazer juntos. Cada um gravou do seu país, eu aqui no Brasil, ela no Japão, e a gente foi mixando e masterizando trocando ideias o tempo todo. Mesmo com a barreira da língua, eu não falo japonês, ela não fala português, conseguimos nos comunicar pelo inglês e tradutor. Foi muito legal porque abriu uma troca de experiências que antes seria impossível, conectando públicos de países diferentes e mostrando como a tecnologia facilita colaborações internacionais.
2. Como você enxerga a tecnologia nesse processo?
Rubah: Se não fosse pela tecnologia, talvez nem tivéssemos nos conhecido e nem conseguido fazer a parceria. Antigamente, nos anos 90, era muito difícil acessar música internacional alternativa. Eu tinha uma galeria de rock pequena em Minas Gerais, material importado era caro, e conhecer bandas japonesas, por exemplo, quase impossível. Hoje, posso descobrir e colaborar com artistas de outros países, e eles com o meu trabalho, sem barreiras físicas. Isso permite parcerias que antes eram impensáveis e ajuda a quebrar limites que faziam o trabalho parecer muito regional.
3. Você teve três bandas ao longo da sua carreira: Misericore, M.E.K.A e D.O.P.S. Como foi essa trajetória inicial e como você se envolveu na cena musical?
Rubah: Nos anos 90 e início dos anos 2000 eu estava bem inserido na cena punk de Minas Gerais. Tinha várias bandas e ajudava colegas a montar projetos, promovia shows, gravava demos, imprimia vinis e fazia de tudo para movimentar a cena local. Era uma época muito experimental, cada banda tinha sua vida própria e muitas vezes a gente entrava e saía de projetos, aprendendo na prática.
Com a chegada da internet no final dos anos 90, começamos a ter contato com bandas de outras regiões, do sudeste e até de outros estados. Antes disso, os contatos eram feitos por cartas registradas, mandar materiais físicos para rádios ou zines internacionais era quase impossível para nós, de cidades menores como Contagem e região metropolitana de Belo Horizonte. Aos poucos veio o e-mail, blogs, fotolog e Orkut, o que abriu portas para diálogos mais distantes, permitindo que nossas bandas chegassem a pessoas e espaços que antes eram inacessíveis.
O Misericore foi a primeira banda que conseguimos registrar oficialmente, eu era vocalista e a banda teve uma boa projeção local. Depois veio o M.E.K.A por volta de 2007/2008, que marcou uma fase mais madura da minha música e me permitiu tocar e gravar com mais consistência. Por fim, participei do D.O.P.S., em que continuei experimentando sonoridades e aprendendo sobre produção e registro de shows e demos. Cada banda tinha sua própria dinâmica, e apesar das dificuldades de sobrevivência na cena independente, esses anos foram fundamentais para consolidar meu conhecimento musical, de produção e de networking, e também me prepararam para seguir a carreira solo mais adiante.
4. Depois de tanta experiência com bandas, como surgiu a decisão de seguir carreira solo e como você desenvolveu seus primeiros trabalhos autorais?
Rubah: Então, depois de todo o período com bandas, eu senti que era hora de explorar minhas próprias ideias. Em 2023, lancei o disco Origem, mas na época eu morava em Buenos Aires, o que complicou muito a divulgação no Brasil. A gente lançou alguns clipes antes do disco, mas o alcance foi limitado. Além disso, a assessoria de imprensa que trabalhava comigo mirava mais os meios maiores, e eu queria alcançar as mídias alternativas, mais conectadas com a galera preta e independente, algo que não tinha sido possível antes.
Quando voltei em 2025, sentimos a necessidade de trabalhar o disco de forma mais intensa aqui no Brasil. Comecei a pensar em parcerias e a explorar a música independente de forma mais aberta.
Enquanto isso, produzi meus primeiros EPs solo. O Encruzilhada foi gravado em Buenos Aires, e o segundo EP, durante a pandemia, foi uma releitura de artistas latino-americanos que eu admiro, como Silvio Rodríguez de Cuba e Rodrigo González do México, além de um cantor italiano, Lucio Battisti. Produzi tudo em casa, gravei os clipes, e foi um processo muito pessoal, conectado com lugares que já tinham feito parte da minha vida.
Por fim, esse processo culminou no lançamento de um disco completo e autoral, que reúne todo esse percurso, minhas experiências e influências, consolidando minha carreira solo.
5. Quem te acompanha nos shows da carreira solo?
Rubah: Hoje eu tenho bandas que me acompanham nos shows, mas varia de cidade para cidade. Em Viçosa, minha banda principal está sempre pronta para as apresentações e excursões, é com ela que eu costumo viajar quando é possível levar o grupo completo, porque temos ensaios estruturados e já conhecemos bem o repertório. Em Brasília e em São Paulo, eu conto com amigos músicos que me acompanham em cada cidade, tocando as músicas e dando suporte no palco, ajudando com instrumentos, equipamentos, tudo que é necessário para a apresentação.
Nem sempre dá para levar a banda inteira para todos os lugares, porque transporte, hospedagem e custos tornam a logística complicada. Então, adaptamos o show de acordo com o que é possível em cada situação. Sempre que consigo, levo a banda de Minas, porque eles já têm ensaios consolidados e conhecem melhor o meu trabalho. Mas entendemos que, especialmente no momento atual, o cenário de shows ainda apresenta desafios, e por isso às vezes fazemos ajustes, viajando com menos pessoas e contando com parceiros locais.
Mesmo assim, seguimos levando a música para o público, aproveitando que, depois da pandemia, as pessoas estão buscando cada vez mais experiências ao vivo, querem ouvir música, sentir a energia do show, e isso é muito gratificante para mim.
6. Como é o seu processo de criação? Como você compõe as letras e melodias das suas músicas, desde a inspiração até a finalização?
Rubah: Olha, cada música tem uma história diferente de criação. Às vezes surge de um poema, como aconteceu com a minha última música “Amour”. Eu escrevi o poema primeiro, e só depois percebi que a sonoridade dele podia funcionar como música. Nessa, por exemplo, eu senti que a voz feminina combinava muito, e isso acabou influenciando toda a interpretação. Em outros momentos, a melodia vem primeiro e depois eu descubro sobre o que quero falar.
Eu acredito muito que a inspiração vem de lugares que a gente não consegue explicar, algo quase inacessível, espiritual, sabe? Às vezes você não está pensando em nada e, de repente, uma música aparece na sua cabeça. E outras vezes, você quer escrever sobre um tema e simplesmente não consegue. Para mim, a criação funciona muito assim: no momento em que a ideia surge, eu gravo, mesmo que seja um rascunho, para não perder. Geralmente, esses momentos vêm à noite, nas madrugadas, quando há mais silêncio e menos interação com o mundo, e a mente consegue organizar melhor as ideias.
No processo prático, eu costumo começar com violão ou guitarra, faço um rascunho, testando melodias e acordes. Depois vou lapidando até chegar na versão final. Em alguns discos, eu já tinha a base inicial de todas as músicas, mas depois contei com outros músicos para ajudar na lapidação. Por exemplo, convidei um baterista que não só gravou as faixas, mas também deu sugestões, trouxe ideias novas. A música é muito viva, mexe com as pessoas, e o envolvimento dos músicos sempre agrega algo à criação.
Eu nunca consegui criar música de forma puramente técnica ou como um exercício. A inspiração não funciona para mim como uma prática laboral. Prefiro criar na mão, com sentimento, experimentando, deixando a música surgir naturalmente. Para mim, o processo é orgânico: cada composição nasce de um encontro entre a inspiração, a melodia, o tema e, muitas vezes, a colaboração de outros músicos.
7. A sua filha Ana Laura foi inspiração para música, né?
Rubah: Sim. Foi a primeira vez que escrevi uma música pensando especificamente em alguém, e quis registrar naquele momento o que eu sentia como pai. Foi uma experiência muito especial, uma forma de registrar nossa conexão e a fraternidade entre nós.
8. Você compartilha suas referências musicais com sua filha? Como funciona essa troca musical entre vocês?
Rubah: Sim, procuro apresentar a ela bandas e artistas que gosto, especialmente mulheres na música, mas sempre deixando-a livre para explorar o que quiser. Ela escuta de tudo: K-pop, funk, pop, rock, trap… E também experimenta tocar instrumentos. É uma troca, enquanto eu compartilho minhas referências e gosto de acompanhá-la nesse processo, ela também me apresenta coisas novas, que às vezes eu nem conhecia. Acho importante que ela tenha liberdade para sentir e criar sua própria relação com a música.
9. O single Jazz, lançado em 2023, mistura elementos do jazz com o rock, algo diferente do que você vinha fazendo. Como surgiu essa ideia e o que esse gênero representa pra você hoje?
Rubah: O jazz entrou na minha vida durante a pandemia. Eu sempre ouvi muita coisa, mas nunca tinha me aprofundado no gênero. Nesse período, comecei a pesquisar sons africanos e acabei descobrindo o jazz da Nigéria e da África do Sul. Me impressionou como essa música, que nasceu da resistência negra, traz força e liberdade.
Fui me apaixonando pela estética, os clubes, o estilo, a mistura entre o social e a dança. Quando compus Jazz, quis trazer essa atmosfera para o meu som, mas com a minha identidade, misturando com o rock e as guitarras distorcidas. A letra fala do cotidiano e dessa sensação de viver pra sobreviver, algo que muita gente sente.
Hoje o jazz representa pra mim uma reconexão com a ancestralidade, e também uma nova forma de expressão dentro do meu trabalho.
10. Como é acessar esses artistas que não são europeus ou norte-americanos?
Rubah: Acho que a internet tem ajudado muito nisso. Hoje é bem mais fácil acessar sons de países como Nigéria, África do Sul ou Angola. A gente começa a descobrir bandas e artistas incríveis que, por muito tempo, ficaram fora do nosso alcance.
Durante a ditadura militar, muitos desses laços entre o Brasil e o continente africano foram rompidos. E isso fez com que a gente passasse a consumir quase tudo que vinha da Europa e dos Estados Unidos. Agora, com mais acesso e curiosidade, parece que há um movimento de retomada, de reconexão com essa origem.
Vejo vários artistas brasileiros indo por esse caminho também, redescobrindo essas influências. Eu mesmo tenho buscado entender mais essa relação, é uma forma de voltar a um ponto que a história tentou apagar.
11. E falando nisso, qual é a relação que tu faz entre música e política? Porque muita gente ainda tenta separar as duas coisas, mas a arte é política, né?
Rubah: Totalmente. Pra mim, a política está em tudo, a nossa vida já é um ato político. Mesmo quando alguém diz que “não fala de política”, já está fazendo uma escolha política. O problema é que muita gente confunde política com política partidária, que é só um dos níveis da política.
O rock, por exemplo, sempre foi um movimento contra a cultura dominante, contra o capitalismo, contra guerras. Nasceu da classe trabalhadora, dos oprimidos. Então não dá pra dizer que não é político. E a MPB também foi política, não porque os artistas “escolheram” ser de esquerda, mas porque o contexto social e o próprio ato de valorizar a cultura local já eram posições contra o colonialismo cultural.
Hoje, eu vejo que existe uma cobrança maior por um posicionamento mais direto, e acho importante também. Porque, diante de um cenário de desinformação, é necessário marcar posição principalmente quando o outro lado representa algo anti-vida: racismo, homofobia, violência. Aí não tem diálogo.
No meu caso, o meu trabalho está alinhado a uma visão mais progressista, anticapitalista e anticolonial. Mesmo quando não é um discurso explícito, ele está nas minhas escolhas, nas parcerias, na forma como eu construo a música e com quem eu escolho estar.
12. Tem algum artista, vivo ou já morto, com quem tu gostaria de fazer uma parceria ou dividir o palco?
Rubah: Ah, são muitos artistas que eu admiro. Alguns já se foram, como B.B. King e Chuck Berry, que foram shows marcantes pra mim. Aqui do Brasil, eu tenho uma admiração enorme pela Marisa Monte, o timbre, o repertório dela, é tudo muito especial. Também gosto muito da Iza, acho ela uma artista incrível, com uma potência vocal absurda.
Tem outros nomes que me inspiram bastante, como Paulinho da Viola e Milton Nascimento, que é mineiro como eu. Eu adorava a Elza Soares também, foi uma mulher revolucionária. Entre artistas mais recentes, tem a MC Tha e a Fernanda Lira da Crypta. Gosto muito da nova formação do Gritando HC também.
Enfim, tem muita gente boa. Eu adoraria fazer algo com o pessoal do Black Pantera, com o Baco Exu do Blues ou até com o Emicida, que tem um trabalho potente e poético.
13. E olhando pra frente, quais são os próximos passos e projetos que tu tem em mente?
Rubah: Depois do lançamento do disco, eu fiquei com muita vontade de rodar mais com o show, conhecer outras cenas, outros públicos. Tenho feito apresentações menores, que permitem uma troca mais direta com o público e com outras bandas, isso me alimenta muito.
Para 2026, quero ampliar essa turnê pelo Brasil, ir pra regiões onde ainda não toquei, como Norte, Nordeste e Sul. Tenho recebido muitos convites e mensagens de gente pedindo pra eu ir, o que é muito legal.
Também penso num novo disco, mas ainda estou definindo como fazer: se de forma independente, por financiamento coletivo ou parceria com selos. O importante é seguir produzindo, não ficar refém do mercado musical. Acredito na força dos coletivos, das parcerias e da mídia independente.
Quero continuar trocando com artistas de várias linguagens, músicos, poetas, artistas visuais e levar esse diálogo pra escolas, universidades e movimentos sociais, porque a música também é um espaço de educação e resistência.
Mais informações sobre o artista siga suas redes sociais: https://www.instagram.com/rubahoficial/
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