Mas tu é “índio” de verdade?
- Preto no Metal

- 29 de jun.
- 4 min de leitura
Pergunta que quase todo descendente de indígenas já ouviu pelo menos uma vez na vida.
Por: Índio Gonçalves
Ela carrega a expectativa pelo relato de vivências em comunidades isoladas, sem acesso a tecnologia, a ânsia de estar diante de um ambientalista sábio e feroz, versado em idiomas esquecidos pela sociedade moderna. Um estereótipo que acompanha lealmente nosso fenótipo. Mas o questionamento também carrega decepção quando se depara com um típico morador de centros urbanos, invalidando nossa ascendência através de olhares e comentários condescendentes, esquece toda e qualquer cicatriz deixada pelo preconceito sofrido, nos coloniza educadamente, se é que isso é possível.
Por muitos anos, produzi arte sem buscar êxito financeiro, mas para ser aceito em ambientes majoritariamente brancos e até obtive certo sucesso, sendo a cota em muitas pinacotecas, bandas, coletivos de artistas, todo mundo quer mostrar que possui um quadro, foi em um show, apoia um artista indígena, como se isso apagasse parte da culpa de ser um invasor involuntário em terras que não lhe pertencem, desde que as obras passassem pelo filtro da minha cor, representassem algo que nunca vivi e trouxessem significado ancestral para as paredes de algum apartamento de classe média. Enquanto na verdade, boa parte daqueles elogios fúteis vem de uma branquitude igualmente “manchada” pelo mesmo sangue que corre em minhas veias, visto que o Brasil é um país misto, liquidificador étnico, difícil de botar o dedo onde uma “raça” começa e outra termina há mais de quinze séculos.
Pode-se dizer que meu momento de claridade, não foi uma epifania consciente, se diluiu ao longo de muitos anos. Aos poucos se tornou visível que aquela aceitação vinda das galerias e da cena underground, não se refletia no dia a dia, nos olhares atentos dos seguranças do shopping, no PM da esquina, no RH, nas famílias das minhas companheiras. Um certo asco, desprezo e escárnio começa a brotar em um coração que sempre entendeu aqueles comportamentos e posturas em relação a mim como padrão e nunca os associou à cor da minha pele e o quê ela representa. Visível assim como o medo respeitoso de assumir uma origem que sempre me pertenceu, mas que é tratada no pisar em ovos por todos aqueles que assim como eu, não nasceram em uma aldeia e tiveram seu berço cultural ceifado sistematicamente desde as missões jesuítas.

Mas e hoje? Tu é índio de verdade?
Sim, banhado em metal prateado, In 49 e Black Sabbath, seu ignorante que não conhece a tabela periódica. Sim, sou o Índio de verdade, nome que me foi dado na tentativa de me diminuir e infantilizar por algum branco irrelevante e esquecível, mas que hoje levo com orgulho para os palcos e pinacotecas de Porto Alegre, enquanto me deleito e me divirto no desconforto daqueles suficientemente esclarecidos para não cometer grandes gafes, em discussões étnicas de espectros progressistas. Sou Índio de verdade também para os fascistas, preconceituosos, incapazes de perceber humanidade em tudo aquilo que foge muito, ou mesmo ligeiramente, daquilo que encontram no espelho, desconectados da realidade plural que os cerca, burros e incompetentes na sua própria insignificância moral, fruto de um cristianismo atrasado desde as cruzadas e para estes, sim, sou lanceiro charrua, com grafismos de guerra, montado em amargura, Shelter Slash cordas 0.12., flechas graves, veia jugular exposta, gritos dissonantes. Sou Índio de verdade para todos aqueles que me rotulam como “beleza exótica”, como se fosse uma onça pintada em alguma árvore amazônica, presente do Romantismo e das leituras obrigatórias do final do ensino fundamental, como pré-adolescentes curiosos e inconsequentes quando encontram um corpo e uma mente que não condizem com os personagens do Maurício de Souza. Sim, meu nome na certidão de nascimento é Papa-Capim. Será que sou tudo isso isso? Às vezes não, às vezes sim.
Mas sei que não sou um índio e sim, “O Índio”. Filho do Zé e seu Caboclo Pena Verde, da Márcia e sua Iansã,
Fica a pergunta, se somos indígenas e minha resposta segue a mesma. Sim, somos indígenas privados de nossas raízes, mas nunca apequenados, por mais de um milênio e meio de exploração, escravidão, chacinas e invasões que seguem acontecendo diariamente, tanto em comunidades e demarcações de áreas florestais, quanto nos centros urbanos onde nossas vozes são caladas, nosso sangue derramado a tiros, marcados pelo maior de todos os genocídios, mas vejam pelo lado bom, somos a fantasia mais querida do carnaval por todo burguês de cervejaria. Tratados como brancos pelos pretos e como pretos pelos brancos que alcançaram a proeza de dividir seus “povos subalternos”, não foi atoa, que uma das ofensas que mais senti, mais me doeu, mais me incomodou, foi quando uma companheira branca, me apresentou para um amigo preto e seu comentário a meu respeito foi “É bonitinho, pena que é branco.”, me senti invalidado culturalmente, sem lugar seguro no mundo, sem voz, de modo que as palavras de R$100,00 me faltaram. Tu é daltônico ou algo do tipo? Não foi estudada a tabela de cores no primeiro ano? Te falta capacidade para distinguir nuance além do prero e branco? Frutos de raiva, quiçá ódio, sangue nos olhos, prepotência e orgulho ferido. Ainda que sejamos os americanos originais, sofremos na mira do mesmo chumbo, na ponta das mesmas espadas, no tilintar dos mesmos grilhões.
O quê eu quero com essa tempestade de reclamações e desdém? Meu desejo é que vocês se fodam, sinceramente, visto que hoje faço arte para mim e mais ninguém, pois como diria meu consanguíneo distante: Vocês brancos não têm alma.
Melhorem, evoluam, apenas.
Que Xapanã traga a peste para os latifúndios e Anhangá os aguarde em seu leito de morte.
Resistimos, cansados e desacreditados, mas resistimos, bravamente. Reforma agrária já, fogo nos fascistas e caso tu tenha te ofendido com esse texto, pau no teu cu também.
Um beijo na testa daqueles que se identificaram e se reconhecem de alguma forma em minhas palavras sem filtro, não estamos sozinhos.
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